Vandalismo, a pedra no caminho da civilidade

A fonte secou. Um grupo de vândalos fez a fonte estancar. Aconteceu no começo da semana, quando arrancaram os fios que faziam o motor funcionar e bombear a água.
O resultado é um espaço sem vida bem no Centro do Recife. Estamos falando da Praça Dezessete, na Rua do Imperador, um dos patrimônios campeões de depredação na capital pernambucana, segundo a Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb). Dados do Estudo sobre Civilidade no Recife, do Movimento Cidade Cidadão, apontam que a depredação do patrimônio público está entre as principais incivilidades praticadas por quem mora no Recife. O que leva alguém a depredar o patrimônio que é de todos se é o próprio cidadão quem paga a conta? O gasto maior, segundo a Emlurb, é com iluminação e praças.
Vandalismo. Essa foi a resposta de 33% dos entrevistados. Quanto mais jovem, mais o recifense defende essa opinião, revela a pesquisa. Se 39% dos ouvidos, entre 16 e 24 anos, disseram que o motivo da depredação é o vandalismo, outros 37%, da 5ª a 8ª séries, falaram o mesmo.
Quando arruma um tempo, a vendedora Teresa Cristina Bezerra, 28 anos, descansa no que sobrou dos bancos da Praça Tiradentes, no Cais do Apolo. À noite, no entanto, ela quer distância do lugar, que hoje está às escuras e que também figura no topo da lista de depredações no Recife. Vândalos arrancaram os globos e as lâmpadas dos postes e até o reator que permitia a iluminação do logradouro. A Emlurb avisa: a recuperação do espaço vai custar R$ 8 mil. Os bancos, as grades do jardim e as estátuas também dão sinais de maus-tratos. “Isso é vandalismo. Não tem outro motivo”, justifica Teresa. Edmundo Guedes, 56, zelador da Praça Dezessete, adotada pela loja Catan, disse que os vândalos levaram até a luz da fonte. “Faz tempo que estamos sem iluminação. Isso aqui à noite é um perigo”, critica.
Menos complacentes – Outras motivações para a destruição do patrimônio público citadas ao longo das entrevistas são falta de educação doméstica, de informação, de fiscalização, revolta, drogas e violência. O curioso é que o estudo demonstra uma mudança nas impressões dos entrevistados ao longo dos anos. É como se o recifense fosse mais compreensivo com os agentes da depredação há dez anos. No mesmo levantamento feito em 1998 e em março de 2002, a resposta mais citada foi falta de informação, falta de consciência, ignorância, falta de cultura, já que não sabem que pagam a conta.
“Faz tempo que estamos sem iluminação. Isso aqui à noite é um perigo”.
Edmundo Guedes – zelador.
“As respostas refletem o momento atual, no qual não temos investimento na área de educação patrimonial, seja o patrimônio público ou privado. Até mesmo a educação ambiental já avançou. As pessoas não entendem que degradando sua história prejudicam seu próprio futuro, a sua cultura que poderia ser passada a outras gerações”, destacou Maria de Lurdes Carneiro Nóbrega, doutora em desenvolvimento urbano pela UFPE e coordenadora do curso de pós-graduação em Patrimônio Histórico da Unicap.
Na comunidade do Pilar, fincado na antiga Vila Fora de Portas, no Bairro do Recife, a construção de habitações próprias no lugar dos barracos que caem aos pedaços parece ser mais importante que a restauração da Igreja do Pilar, que está em andamento. Um indício é que na primeira obra nem mesmo as telhas da igreja restaram no lugar. Tudo foi retirado. “A depredação do patrimônio no Pilar é questão de ordem social. A igreja é restaurada e a miséria continua no entorno”, explica Francisca Toledo, diretora de Preservação do Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura. Na tentativa de evitar mais um estrago, no segundo semestre deste ano também deverá ser construído um conjunto habitacional para os moradores do Pilar.
Se o caminho mais curto para pôr um freio na depredação é a educação, um bom sinal é a confecção da cartilha sobre os jardins de Burle Marx, que tem 18 praças construídas no Recife. Ana Rita Sá Carneiro, doutora em parques urbanos e coordenadora do laboratório da paisagem da UFPE, explica que o material está sendo confeccionado para distribuição nas escolas municipais e estaduais. “Poucos sabem que várias praças foram projetadas por ele”, ressalta.
Segundo a pesquisa, é no Centro e Noroeste do Recife, que congregam 40 bairros, onde os moradores (16%) mais se queixam da depredação do patrimônio como principal falta praticada pelo recifense. Por ano, a PCR gasta cerca de R$ 2 milhões para corrigir estragos do vandalismo. Por mês, 70 papeleiras, por exemplo, são destruídas.







