Relíquias em ferro fundido
Porto Alegre já exibiu em seus espaços públicos sofisticadas esculturas e chafarizes em ferro fundido. Essas obras eram produzidas em série na região francesa de Haute-Marne, atendendo a encomendas de todo o Ocidente. Livro que está sendo lançado pelo pesquisador José Francisco Alves rastreia as peças que vieram para a Capital, Rio Grande e Pelotas.
F onte não nomeia apenas uma vertente d’água ou uma bica. É o termo técnico que se usa para certos objetos em ferro fundido, produzidos em um ponto bem específico do nordeste da França e muito cobiçados aos tempos da Belle Époque, cem anos atrás. As chamadas fontes de arte (ou fontes d’art, no francês) eram peças decorativas, feito estátuas, ou que conjugavam a condição ornamental, escultórica, com algum fim utilitário, como bebedouros, chafarizes, luminárias e vasos.
Àqueles tempos, entre fins do século 19 e os primeiros anos do século 20, antes da I Guerra, o Ocidente todo tinha ambições parisienses. Copiava ou importava da capital francesa tudo quanto denotasse civilidade: a literatura, a pintura, a cozinha, os modos, as sensibilidades, o imaginário. Foi nesse espírito que as fontes d’art se espalharam pelo mundo. Havia fundições na Inglaterra, na Escócia e na África, mas as mais charmosas, as mais desejadas, eram as do Haute-Marne, na região francesa de Champagne-Ardenne. Dali, as esculturas de ferro eram levadas a outras cidades da Europa, aos Estados Unidos e à América do Sul.
Nenhum lugar do Brasil importou tantas fontes como o Rio de Janeiro do Segundo Reinado. Auguste Glaziou, engenheiro e paisagista francês contratado pela Coroa, desenhou uma série de praças e jardins e os fez enfeitar com peças de ferro fundido, sobretudo da fundição Val d’Osne. O exemplo que se tornou clássico é o Chafariz Monroe, na Cinelândia, frequentemente saudado como um dos mais bonitos do mundo. Ainda hoje, com cerca de 200 peças preservadas, a capital fluminense disputa com Buenos Aires (na Argentina) e Cidade do México (no México) o título de metrópole – fora da França – com maior número de fontes.
Também o Sul do Brasil fez vir esse gênero de obra de arte. Livro que está chegando às livrarias na semana que vem oferece um levantamento muito detalhado sobre o que aportou em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. Edição caprichada (Artfólio, 216 páginas, R$ 130), bilíngue (português-francês), amplamente ilustrada, Fontes d’Art no Rio Grande do Sul mapeia o percurso de cada peça, desde os catálogos do Haute-Marne até os esforços para sua conservação.
O autor, José Francisco Alves, é um dos maiores especialistas em arte pública no Rio Grande do Sul. Em 2004, publicou o livro A Escultura Pública de Porto Alegre, resultante de sua dissertação de mestrado no Instituto de Artes da UFRGS. Atualmente, prepara tese, em nível de doutorado, também na universidade federal, sobre a presença da arte contemporânea em áreas abertas da Capital.

O Chafariz das Nereidas foi instalado em abril de 1873 na Praça General Pedro Osório, em Pelotas. Criado pelo escultor Jules Klagmann para a Fundição Durenne, é uma versão algo reduzida do Charafiz Ross, fixado em 1872, na cidade de Edimburgo, na Escócia.
Desde pelo menos 2002, Alves cataloga as tais fontes d’art. Algumas são bem conhecidas: o Chafariz das Nereidas, na Praça Pedro Osório, em Pelotas, o Chafariz das Três Graças, na Praça Xavier Ferreira, em Rio Grande, o Chafariz dos Anjinhos, na Praça Tamandaré, também em Rio Grande, a figura egípcia que está no pátio do Palácio Piratini, as luminárias do saguão da Biblioteca Pública do Estado, os garotinhos gorduchos que servem de candelabro na entrada da Escola Ernesto Dornelles, o Chafariz do Menino com a Concha, na Redenção, em Porto Alegre. O que a pesquisa revela é que todas essas obras, tão diversas na aparência, têm uma fonte comum. São encomendas feitas entre as décadas de 1870 e 1920 ao Haute-Marne. Algumas, para a fundição Val d’Osne, mas a maioria, para a Fundição Antoine Durenne.

Litografia de Balduin Röhrig, de 1865, alusiva à visita de Dom Pedro II à Capital, reproduz fontes que sumiram da cidade
Outra novidade diz respeito não exatamente à existência desse tipo de obra, mas a sua desaparição. Durante o inventário, Francisco Alves descobriu que Porto Alegre já teve sete chafarizes de ferro fundido, portentosos, elegantes, imponentes.
– Sobrou um – lamenta o pesquisador.
Trata-se do chamado Chafariz Imperial, que está no Parque da Redenção, perto do Auditório Araújo Vianna. Criado pelo escultor Carrier-Belleuse para a fundição Durenne, foi importado em 1866, sendo postado inicialmente na antiga Praça do Mercado (hoje Praça XV), perto do Chalé. Àquela época, era chamado de Chafariz Conde d’Eu, em homenagem ao marido da princesa Isabel. Em 1925, seguiu para outro ponto, também próximo ao Mercado Público. Depois da grande enchente de 1941, que cobriu de água grande parte do Centro, acabou na Redenção.

Fotografia de 1910 confirma que o chamado Chafariz Imperial, hoje na Redenção, ficava originalmente na Praça XV, junto do Chalé. O conjunto escultórico de ferro fundido foi trazido do Haute-Marne em 1866
Os outros seis chafarizes que enfeitavam a Porto Alegre da Belle Époque sumiram sem deixar rastro. Não há nenhum documento oficial que dê conta do seu fim. Com base em fotografias de época e plantas-baixas presentes no acervo do Arquivo Histórico da Capital, Francisco Alves calcula que os chafarizes desapareceram por volta do último ano do século 19. Teriam sido vendidos como refugo para ferro-velho. Argumenta o pesquisador que, se as peças ainda existissem, mesmo que tivessem ido parar em outra cidade ou em uma coleção particular, algum indício haveria. Lembra o doutorando que a Associação pela Salvaguarda e pela Promoção do Patrimônio Metalúrgico da Haute-Marne, entidade internacional com sede na cidade de Wassy, na França, faz minuciosos e constantes rastreamentos sobre fontes d’art no mundo inteiro.
Os primeiros chafarizes de Porto Alegre foram importados do nordeste francês com um fim muito preciso: assinalar que a província passava a contar com distribuição de água potável. Os dois primeiros chafarizes, segundo apurou o autor gaúcho, teriam sido inaugurados, em outubro de 1865, pelo próprio Dom Pedro II, quando ele voltava da libertação de Uruguaiana, durante a Guerra do Paraguai. Um deles, conhecido como Chafariz da Imperatriz, ficava na Praça da Alfândega, bem em frente ao prédio onde funciona hoje a sede social do Clube do Comércio. No alto, ele reproduzia as figuras de três meninos gordinhos, de costas uns para os outros. O segundo chafariz trazia uma personagem feminina com o braço erguido. Derramava água na antiga Praça do Portão (hoje Praça Conde de Porto Alegre). Os outros estavam fixados na Praça da Caridade (atual Dom Feliciano), na Praça da Harmonia, no Alto da Bronze e na Praça da Várzea (atual Parque Farroupilha).

Catálogo da fundição francesa Durenne reproduz chafariz similar ao que foi fixado na Praça do Portão, na Capital, hoje sumido.
– Não há notícia de um desaparecimento similar em toda a América – queixa-se o pesquisador. – As autoridades da época certamente não se deram conta de que os chafarizes eram elementos de embelezamento da cidade.
Pelotas e Rio Grande tiveram mais sorte. Dos oito chafarizes de ferro fundido que haviam atravessado o oceano, apenas dois desapareceram.

José Francisco Alves, autor do livro “Fontes d’Art do Rio Grande do Sul”, acredita que os dois cães que guardam o Monumento a Júlio de Castilhos, na Praça da Matriz, em Porto Alegre, não sejam obras do artista carioca Décio Villares, criador do monumento, inaugurado em 1913. Os cães são em ferro fundido, enquanto as figuras do monumento são de bronze. Correspondem a peças idênticas que aparecem em antigo catálogo da Fundição Val d’Osne.

Fotografia feita em 1888 diante da Santa Casa de Misericórdia mostra que havia ali um chafariz de grande porte. Documentos da Companhia Hidráulica Porto-Alegrense indicam que a peça teria sido instalada em 1866. Era monumental. Compreendia uma série de oito ninfas na base, mais quatro figuras centrais, representando as artes e as ciências.







