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Primeiro mapa de Cachoeira será restaurado

DefenderNotíciasRio Grande do Sul • 13 de dezembro de 2008 por Silvana Losekann

A diretora do Arquivo Histórico Municipal e a partir de 1º de janeiro diretora municipal de Cultura, Mirian Ritzel, teve uma surpresa desoladora ao encontrar o primeiro mapa de Cachoeira do Sul na última semana. Considerado um achado histórico pela organização Defender, o mapa datado de 1850 é o primeiro documento descritivo das ruas e do terreno de Cachoeira, confeccionado quando o município ainda era a Vila de São João da Cachoeira. A planta, que mede 1,5 por dois metros, estava enrolada e em estado de degradação, praticamente se esfarelando no Arquivo. O mapa acabou sendo maltratado pela equipe da Prefeitura que fez a mudança dos móveis do Arquivo para o casarão da 15 de Novembro.

Mirian até brinca dizendo que chegou a ter uma síncope cardíaca ao ver o documento daquele jeito, pois ele “pode ser o mapa mais antigo de uma cidade existente no Rio Grande do Sul. Ninguém sabe o paradeiro de documentos deste tipo de Rio Pardo”, exemplificou a professora e historiadora. Minutos após ver o estado lastimável do mapa, Mirian contatou o presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural de Cachoeira do Sul (Compahc), Miguel Felippe de Moraes, que por sua vez entrou em contato com a Defender. Nestes momentos foi desencadeado o início de uma verdadeira força-tarefa para salvar a importância histórica do documento.

Restauração – A Defender viabilizou com seus parceiros a restauração do mapa, além de providenciar ainda uma digitalização do documento, evitando que os anos possam apagar “estas raízes da história de Cachoeira do Sul”, como enfatizou o presidente da Defender, Carlos Dreyer. O mapa passará por restauro de especialistas, informa Dreyer, para ser recuperado. O documento também entrará em processo de tombamento pelo Município, devido à sua importância histórica para Cachoeira do Sul e para o estado. Segundo o presidente do Compahc, os documentos para efetivar o tombamento do primeiro bem móvel de Cachoeira do Sul devem ser protocolados na Prefeitura de Cachoeira do Sul no início da próxima semana. O mapa será o primeiro documento da cidade a ser tombado.

História da cidade quase vira cinzas

O primeiro mapa de Cachoeira do Sul, apesar de seus 158 anos, ainda tenta resistir às ações do tempo e já passou por situações que poderiam ter apagado para sempre uma história para muitos desconhecida da cidade. De acordo com a diretora do Arquivo, Mirian Ritzel, a primeira planta de Cachoeira do Sul foi encomendada em 1849 pela então Casa de Câmara e Cadeia da cidade (vereadores) para o agrimensor e engenheiro alemão João Martinho Buff para que fosse feita a demarcação dos terrenos da cidade e seus respectivos proprietários em um livro-cadastro, além da identificação de ruas e travessas da Vila de São João da Cachoeira.

O documento ficou muitos anos com a Prefeitura e chegou a ser salvo do fogo entre as décadas de 60 e 70, como recorda a primeira diretora do Museu Municipal, professora Lya Wilhelm. Lya conta que estava sendo feita uma “geral nos arquivos da Prefeitura e alguém atirou a planta ao fogo. Por sorte um topógrafo conhecido apenas como Antoninho salvou este documento”, conta a professora. Porém, marcas de fogo acabaram sendo inevitáveis no mapa. O historiador Fritz Strohschoen foi quem cedeu então o documento ao acervo do Museu, sob os cuidados de Lya, que comandou o órgão de 1978 a 1996.

Restauro – Mirian conta que já nos anos 2000 ela solicitou que o mapa passasse por restauro da equipe especializada do Arquivo. “O papel do mapa passou por uma reidratação e recuperação primária”, conta. A recuperação do mapa acabou parando quando a equipe de restauro do Arquivo deixou de existir após o episódio de queima de documentos envolvendo a ex-diretora Rosinha Cunha. Depois da recuperação inicial o mapa acabou enrolado para a mudança do Arquivo, quase perdendo um pedaço importante da história de Cachoeira.

Para saber mais

A primeira planta de Cachoeira do Sul traz também os nomes das ruas existentes em Cachoeira do Sul na época. A diretora Mirian Ritzel comentou que anos mais tarde a Prefeitura atualizou o documento, com os nomes atuais das ruas citadas.

Primeiro mapa relembra histórico de Cachoeira

O mapa encontrado pela diretora do Arquivo, Mirian Ritzel, remonta de certa forma o histórico de uma cidade que começou a ser urbanizada seguindo princípios portugueses, com ruas largas e amplas em quadras quadradas, o que pode ser percebido pela planta feita pelo engenheiro João Martinho Buff. Segundo Mirian, a primeira referência histórica sobre o ordenamento urbano de Cachoeira está no ano de 1800, quando iniciaram as guerras de demarcação de fronteiras, que trouxeram para a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira novos moradores.

A planta ficou pronta em 1850, feita a pedido dos vereadores.

Além de apresentar os nomes de todas as ruas e os principais pontos da então Vila de São João da Cachoeira, o engenheiro responsável pela planta apresentou um cadastro onde ficaram registrados na época 422 terrenos, com 173 edificados e 249 ainda desocupados, mostrando o início do processo de crescimento da região. Foram traçados no mapa os limites da vila, destacando os terrenos da Praça do Pelourinho (atual José Bonifácio), Praça da Igreja (atual Balthazar de Bem) e o da Praça de São João, onde hoje fica o Hospital de Caridade e Beneficência.

Bárbaros – A diretora Mirian conta que àquela época Cachoeira ainda mantinha costumes bárbaros. A Praça José Bonifácio (Pelourinho), que hoje é usada para festas comunitárias e encontro de famílias, servia de ponto para castigo aos criminosos. “No Pelourinho, em praça pública, eram punidos com chibatadas e enforcamentos quem desrespeitasse as leis. O Pelourinho era o símbolo da autonomia político-administrativa da vila”, comenta Mirian. A historiadora conta que existiam duas praças na época, uma religiosa (Matriz) e outra civil (Bonifácio).

Outros detalhes comentados pela historiadora que remetem à época de confecção do mapa são sobre uma vinda do imperador D. Pedro II à vila, ficando hospedado na melhor casa da vila, de propriedade de Afonso Pereira, ornamentada em sua fachada com azulejos portugueses. A residência era onde hoje fica a agência do Sicredi, na Rua Saldanha Marinho. Mirian conta que a Casa da Aldeia, que encontra-se quase em ruínas, recém havia sido construída e que o maior prédio da cidade era a Igreja Matriz.

Quem confeccionou a primeira planta de Cachoeira?

João Martinho Buff, o engenheiro da comarca encarregado de confeccionar a planta e o cadastro dos terrenos da Vila Nova de São João da Cachoeira, nasceu em Rödelbhein, próximo a Frankfurt, na Alemanha, em 8 de maio de 1800. Era filho de Josef Ludwig Buff. Contratado pelo Império do Brasil para integrar o 28º Batalhão de Caçadores Alemães, denominados por D. Pedro II como os diabos brancos, participou do combate à Confederação do Equador, em Recife. Quando deu baixa no batalhão, Buff fixou-se em Rio Pardo, dedicando-se à engenharia e agrimensura. De seu conjunto de obras constam: plantas de Rio Pardo e Cachoeira, projetos de construção das pontes do Couto, do Jacuí e do Botucaraí (Ponte de Pedra) e da antiga Escola Militar de Rio Pardo, hoje Centro Cultural Regional de Rio Pardo. João Martinho Buff faleceu aos 80 anos em Rio Pardo.

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Fonte: Jornal do Povo

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