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Pesquisa mostra cotidiano dos mineiros no século 19

Minas GeraisNacionalNotícias • 26 de dezembro de 2009 por Silvana Losekann

Obra de Debret expressa os usos e costumes dos núcleos familiares do Brasil nas primeiras décadas do século 19, em que os negócios fazem parte das relações de sangue.

Estudo revela existência dos primeiros grupos de autônomos e assalariados.

Uma agremiação unida por laços de parentesco, sem deixar de lado a inserção produtiva. Nesse contexto, o núcleo familiar cresce não apenas pelo número de filhos, mas pelo de escravos, de hectares de terras e outros bens, numa união harmoniosa com os negócios. Não há distinção entre pessoas consanguíneas e agregados, todos pertencem ao mesmo grupo e vivem sob o mesmo teto. O conceito das famílias mineiras do século 19 é um modelo que reproduz os costumes de um Brasil que saía dos domínios do imperador dom Pedro I, nos primeiros meses de 1831, para entrar no governo provisório da Regência até 1840, quando dom Pedro II completou a maioridade. Esse universo está retratado na tese de doutorado “O trabalho do fogo: perfis de domicílios enquanto unidades de produção e reprodução na Minas Gerais oitocentista”, do pesquisador Mário Rodarte, pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG).

O estudo, que ganhou o título de melhor tese da universidade este ano na área de ciências sociais, foi concluído depois de 15 anos debruçado sobre livros e documentos da época, guardados no acervo do Arquivo Público Mineiro, no Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A pesquisa foi feita com base nos manuscritos do censo de 1831, ordenado pelo então presidente da província de Minas Gerais, Manuel Inácio de Melo e Sousa, o Barão de Pontal, que ocupou o cargo até 1833. Ao todo, 313 localidades foram recenseadas. A amostragem é maior nas regiões de Ouro Preto (Central do estado) e Sul de Minas, onde estava a concentração demográfica.

A carta do presidente da província obrigando os distritos a fazerem a investigação dos seus moradores também apresentava um padrão a ser seguido. As pessoas da casa eram listadas nominalmente, começando pelo chefe do domicílio (na época chamado de “fogo”). Ao lado de cada nome constam ainda a idade, a cor, o estado civil, a condição social (se escravo ou livre) e a ocupação. No fim da década de 1830, era creditado ainda se a pessoa sabia ou não ler. Os documentos do Arquivo Público dão conta de 84.810 famílias – mais de 500 mil pessoas, que representavam 10% da população brasileira (5 milhões de habitantes). É o maior banco de dados desse período. Mário Rodarte aponta algumas hipóteses para o censo não contemplar todos os moradores de Minas (848 mil). “Ou alguns distritos não obedeceram à determinação do chefe da província ou os documentos se perderam com o passar dos anos”, afirma.

A tese definiu quatro tipos emblemáticos de famílias do século 19. Dois deles, os escravistas e os camponeses, são velhos conhecidos da história. Os outros surpreenderam, pois são considerados inexistentes ou tratados de forma marginal pela literatura: os autônomos urbanos, que se destacam como uma alternativa ao modelo patriarcal, uma vez que o chefe da casa era, normalmente, a mulher (fiadeiras ou tecedeiras); e os assalariados. “Essas são as grandes novidades, principalmente os assalariados. Eles só são considerados a partir da imigração europeia, depois da abolição da escravatura (1888) e com o início da industrialização em São Paulo. Embora em percentual pequeno, detectamos esses trabalhadores pelo menos 40 anos antes”, ressalta Mário Rodarte. “É importante destacar ainda que esse grupo foge do perfil comum da família assalariada, ou seja, urbana e empregada na indústria. Nos anos de 1800, é rural e trabalha na pecuária, pois um escravo como vaqueiro era um risco, uma vez que a criação de gado, no modelo extensivo, favorecia a fuga dele”, diz.

De acordo com o censo de 1831, a maior parte da população mineira era constituída por camponeses (24,3%), seguidos dos escravistas (21,6%), autônomos (12,5%) e os assalariados (4,7%). Outros 29,2% não puderam ser classificados entre as quatro variações e são considerados tipos mistos. Entre eles, o núcleo consanguíneo era formado, em média, por cinco pessoas, segundo o pesquisador. O estudo quebra o mito das famílias numerosas. Rodarte explica que havia, sim, muitas pessoas, mas agregados e empregados, pois a alta fecundidade era compensada pela elevada mortalidade.

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Fonte: Portal UAI

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