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Do lixo para as prateleiras

NotíciasRio Grande do Sul • 30 de novembro de 2008 por Silvana Losekann

Papeleiro funda biblioteca em Passo Fundo e leva literatura à periferia.

Tesouros da literatura salvos do lixo por um papeleiro de Passo Fundo agora podem ser compartilhados por moradores do bairro Valinhos, na periferia do município do norte do Estado. A biblioteca, inaugurada na sexta-feira, já conta com um acervo de 6 mil livros.

Valdelírio Nunes de Souza, 64 anos, é o grande personagem dessa história. Durante 25 anos, ele juntou e vendeu papel para reciclagem como forma de garantir a sobrevivência da família. Nos últimos 12 anos, em meio ao material que juntava pelas ruas, começou a guardar os livros que encontrava. Conhecido como Chicão, o papeleiro que estudou até a 5ª série do Ensino Fundamental sentiu que o material, que podia lhe render R$ 0,12 o quilo com a venda, teria valor inestimável na mão de crianças sem condições de comprar livros.

– Sempre sonhei em ajudar a comunidade aqui do bairro, e esses livros não caíram na minha mão por nada – conta ele.

Durante esse tempo, Chicão brigou com quem o chamava de louco, num esforço para preservar e salvar o material. Não havia local adequado para guardar os livros, que, atingidos pela chuva e pela umidade, muitas vezes não podiam mais ser restaurados. O enteado Mauri Lima e Silva, 11 anos, conhece de perto essa história. Ele cresceu ajudando o padrasto a colar capas, secar livros molhados e restaurar as obras com poucos recursos e criatividade.

– Aprendi a gostar de ler com esses livros e já sei até organizar pelo número nas prateleiras – conta o menino.

O sonho de Chicão se tornou realidade pela mão de empresários que o ajudaram a construir um espaço na sede da Associação dos Papeleiros de Passo Fundo, onde a biblioteca tomou forma. Alunos do curso de Jornalismo na Universidade de Passo Fundo se uniram ao projeto e passaram os últimos dois meses ajudando a organizar o material.

Agora, as obras estão catalogadas em 27 categorias que Chicão conhece de cor e não cansa de reler. Há didáticos, literatura infantil, religião, filosofia, auto-ajuda, livros técnicos, estrangeiros, coleções e revistas.

– Tem livro raro aqui, de 1908. Estou deixando uma herança que não tem preço – reconhece.

Inaugurada na tarde de sexta-feira, a biblioteca recebeu a visita de parceiros e estudantes de uma das cinco escolas próximas ao bairro. A professora Silvana Araújo passeou com os alunos por entre as prateleiras e ficou impressionada com a dedicação do papeleiro.

A história se repete

O papeleiro Valdelírio Nunes de Souza não é o único a levar cultura às periferias. Criada pelo pintor de paredes Roberto Carlos Sampaio Guedes, na periferia de Taquara, a Associação Amigos do Livro de Taquara foi a vencedora do Prêmio Fato Literário 2006 e hoje conta com mais de 20 mil livros.

Na sede, no bairro Empresa, um dos mais pobres do município, as crianças têm aulas de teatro, violão e xadrez. Hoje, a associação ainda oferece alfabetização de adultos e um cantinho de música. Diariamente, recebe a visita de cerca de 50 crianças.

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Fonte: Zero Hora

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