Diálogo do Absurdo Documentado
por Benedito Tadeu de Oliveira*
http://pracadaliberdadebhmg.blogspot.com/
Praça da Liberdade – Belo Horizonte, Minas Gerais
Joaquim:
- Estão fazendo demolições na Secretaria de Educação? O que estão colocando lá em cima?
Xavier:
- Parece que é uma gaiola de ferro.
Joaquim:
- Mas a edificação não é tombada?
Xavier:
- É, parece mentira não parece? O tombamento na Praça da Liberdade ficou muito relativo. No mundo da propaganda tudo é possível, mentira vira verdade.
Joaquim:
- Que tamanho de grua!!!!
Xavier:
- É proporcional ao ego do arquiteto e ao estrago que ele vai causar na Praça da Liberdade.
Joaquim:
- Quem é o autor do projeto?
Xavier:
- Parece um Átila, mas o autor do projeto é um prêmio Pritzker. O mesmo que descaracterizou o bairro antigo do Recife.
Joaquim:
- Mas no “clube dos Pritzker” eles desconhecem os critérios de intervenções em patrimônio cultural?
Xavier:
- Pelo jeito sim.
Joaquim:
- Que coisa mais brega. Será que eles vão fazer um telhadão paulista lá em cima?
Xavier:
- Paulista não. Telhadão capixaba. O arquiteto é capixaba.
Joaquim:
- Então mineiro gosta de praia e também de telhadão capixaba. E aquele prédio embrulhado de cinza do lado?
Xavier:
- Parece um mausoléo e também uma caixa de sapato da cinderela. A arquiteta provavelmente se enganou e pensou que estava projetando um prédio para a Av. Paulista.
Joaquim:
- Esses projetos não interferem na ambiência do conjunto tombado da Praça?
Xavier:
- Que ambiência e que conjunto tombado? Hoje na Praça da Liberdade até demolição de parede tombada pode ser muito subjetiva.
Joaquim:
- Onde estão os Institutos de Patrimônio responsáveis pela salvaguarda dos nossos bens culturais.
Xavier:
- Pelo jeito estão profundamente adormecidos e dormem um sono de Zeus.
Joaquim:
- E o projeto que o Sindicato de Arquitetos encaminhou em setembro de 2007 ao IPHAN pedindo a proteção da Praça da Liberdade?
Xavier:
- Provavelmente jaz em uma gaveta de um burocrata qualquer daquele instituto.
Joaquim:
- Se o governo mineiro não sabe que destino dar ao prédio da Secretaria de Cultura (2 andares), do Palácio dos Despachos (3 andares) e do IPSEMG (10 andares), para que fazer mais um andar na Secretaria de Educação?
Xavier:
- Não sei. Talvez o arquiteto e o financiador queiram produzir um “drama” na Secretaria de Educação.
Joaquim:
- Quem está financiando?
Xavier:
- A EBX do ex-Luma de Oliveira
Joaquim:
- Então estamos diante de um verdadeiro casamento entre capital e trabalho. Um projeto de um arquiteto comunista financiado por um grande capitalista.
Xavier:
- Isso mesmo, o arquiteto vai colocar uma cascata de Shopping Center na Secretaria e também pediu para pintar o telhadão capixaba de “vermelho bolchevique”.
Joaquim:
- Que insanidade, que coisa mais jeca na secretaria mais bonita da Praça da Liberdade! Onde foi parar a sobriedade mineira? O governo não deveria dar bom exemplo?
Xavier:
- É. Só o Ministério Público que já salvou a Secretaria de Finanças de intervenção parecida, pode nos tirar desse pesadelo.
*Benedito Tadeu de Oliveira, arquiteto (UnB, 1980), doutor em Restauro dei Monumenti pela Universidade de Roma – La Sapienza (1985). Ingressou na Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ, Rio de Janeiro, em 1987, onde foi chefe do Departamento de Patrimônio Histórico da Casa de Oswaldo Cruz (1989/1994 e 1997/2001), participou da criação do Museu da Vida e coordenou o trabalho de conservação e restauração do conjunto arquitetônico de Manguinhos. Foi professor da Fundação de Arte de Ouro Preto – FAOP e Diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN em Ouro Preto, MG (2002-2009).














