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Caxias do Sul/RS – Um passeio pela memória das ruas

NotíciasRio Grande do Sul • 27 de fevereiro de 2010 por Silvana Losekann


Quem passa apressado pelo Centro de Caxias pode até não perceber, mas anda por uma cidade que conserva vestígios da época em que começou a ser construída, há mais de cem anos.

Entre as grandes placas comerciais, banners e anúncios – ornamentos do nosso tempo – resistem os antigos e imponentes prédios que representam a trajetória e a identidade cultural do município. Ainda que tenham as fachadas caladas pela modernidade da propaganda, as paredes sussurram histórias, dessas que os velhos gostam de contar repetidamente até solidificar a tradição. Falam de um tempo em que era mais difícil e trabalhoso erguer um prédio, mas harmonizá-lo com a estrutura arquitetônica coletiva da cidade, um desafio para a Caxias contemporânea, era algo que fluía naturalmente.

O arquiteto e urbanista Roberto Filippini percorre as ruas de Caxias com o olhar de admirador. É essa sensibilidade, de aficionado pela história, e a responsabilidade de quem a preserva que Filippini procura transmitir aos participantes dos Caminhos da Memória, um projeto realizado em parceria entre a prefeitura e a Associação dos Amigos da Memória e do Patrimônio Cultural de Caxias do Sul (chamada Moúsai, do grego “musa”), via Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Em um ano do projeto, mais de 100 pessoas foram guiadas por Filippini por cinco quarteirões do centro de Caxias. A visita está marcada para o último sábado de cada mês, mediante agendamento no Museu Municipal. O objetivo do passeio é fazer com que as pessoas andem por ruas conhecidas e, com um caminhar mais lento e um novo olhar sobre os prédios, sintam-se forasteiros na própria casa e redescubram uma cidade mais interessante do que o cotidiano é capaz de revelar.

O roteiro parte do Museu Municipal, na Rua Visconde de Pelotas, passa pela Avenida Júlio de Castilhos, no entorno da Praça Dante, e vai até a entrada do Parque Getúlio Vargas (Macaquinhos), na escadaria da Rua Os 18 do Forte. Nesse percurso, que dura cerca de uma hora, Filippini fala sobre as arquiteturas, os ornamentos e o contexto histórico de 16 prédios. Antes de iniciar a caminhada, os participantes têm uma aula introdutória sobre os principais elementos e estilos arquitetônicos. “Quem acertar o nome de um ornamento durante a visita ganha um pote de chimia”, brinca.

No Museu, o primeiro prédio a ser descrito, a visita já se revela interessante. “A residência da família Otolini, construída entre 1880 e 1884, mostra a herança dos sobrados da época do Brasil Colônia. Antes de funcionar como prefeitura, já foi Centro da Intendência, abrigou a Guarda Municipal e uma cadeia”, conta Filippini, entre histórias de assaltos à diligência, em clima de faroeste. Na próxima parada, a esquina entre a Avenida Júlio de Castilhos e a Rua Visconde de Pelotas, está a antiga Casa Saldanha (atual loja da TIM). “No alto do prédio temos três figuras femininas. Sentadas, as musas da música e da pintura ladeiam a musa da literatura, que está de pé e lê para a cidade”, descreve Filippini. Em 1944, a poesia das estátuas que hoje passam despercebidas fazia uma referência à função comercial do prédio, que abrigava a famosa livraria das irmãs Nina e Ninetta.

O passeio prossegue pela Avenida Júlio de Castilhos. A essa altura, os participantes já caminham pela Rua Grande, como era chamada a principal rua da cidade na origem do desenvolvimento de Caxias. Na esquina com a Rua Dr. Montaury, que Filippini chama de ponto didático, o arquiteto fala sobre o estilo eclético (estilo arquitetônico que mescla elementos de outros estilos), predominante nos prédios ao redor da Praça Dante. “Ali eu mostro as variações do eclético, que se apresentam de acordo com a intenção do arquiteto.”

No quarteirão mais interessante do roteiro, a partir do “ponto didático”, está a residência da família de Adelino Sassi (atual lojas Pompéia), o antigo Banco Francês e Italiano para a América do Sul (que hoje abriga uma financeira) e a residência de Ângelo Chittolina. Nessa última, Chittolina instalou, no final do século XIX, a sua moradia no segundo pavimento e um comércio no primeiro – um tipo de construção característico dos antigos comércios centrais. O local abrigou uma fábrica de produtos suínos e o Café América, famoso ponto de encontro da elite local. A fachada do prédio, onde agora funciona o supermercado Imec, sofreu sucessivas mudanças e hoje conserva poucas referências da construção original.

Ainda no antigo Calçadão, Filippini conta a história do Theatro Central (atual Manlec). O prédio, que pertence ao Recreio da Juventude, foi erguido em 1928 para abrigar uma casa de espetáculos. Na fachada, além das máscaras de teatro, três figuras humanas exibem-se seminuas, o que foi um escândalo na época. “A mulher (no centro) segura uma coroa de louros, o que interpretamos como uma referência à conquista”, explica Filippini. A sociedade eminentemente católica dos anos 20 não interpretou dessa maneira. “O vigário João Meneguzzi achou uma afronta aquelas estátuas de frente para a catedral. E a sociedade que ele representava ficou desgostosa.”

Na outra esquina da praça, Filippini descreve a arquitetura da residência da família de Álvaro Scotti (atual Farmácia Central), um dos prédios que melhor conservam elementos originais, e apresenta o Clube Juvenil. Com cores pastéis, características dos anos 20, o prédio, que sempre foi símbolo da elite caxiense, sediou um momento histórico na política de Caxias. “No segundo balcão, em 1942, se deu um grande comício, com mais de 900 pessoas, para discutir a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial. Bradando contra o povo alemão e italiano, se decidiu apoiar o Brasil.” A volta na quadra mostra o prédio do Banrisul e chega ao Cine Guarany (atual Deltasul), na Rua Marquês do Herval. “O Cine Guarany, de 1939, foi o primeiro a ser construído para ser cinema. O caxiense sempre foi aficionado por cinema e nunca faltou uma sala para mostrar o que acontecia no mundo”, discursa Filippini sobre o prédio que seguiu padrões internacionais da construção de cinemas.

Na sequência do roteiro, os participantes avaliam o prédio da Catedral Diocesana e a Casa Episcopal. A caminhada segue pela Rua Sinimbu e estuda a antiga Metalúrgica Abramo Eberle. Conforme Filippini, o prédio, construído em 1942, segue o estilo art-déco do Empire State Building, em Nova York. “É o primeiro arranha-céu da região. Foi construído com vários ambientes e o objetivo de dar melhor assistência aos funcionários”, explica Filippini. Em 1955, foi instalado o relógio que virou símbolo do centro. Antes de encerrar o passeio, na entrada do Parque Getúlio Vargas, onde se vê o antigo Pavilhão da Festa da Uva e Feira Industrial (atual Centro Administrativo), Filippini fala da ostentação na casa da família Eberle (esquina da Sinimbu com a Borges), construída em 1938. “Em cada detalhe, o palacete florentino representava a família de posses. A obra foi construída com muito esmero.” A qualidade e o requinte dos materiais utilizados na construção a conservaram em ótimo estado, quase como na época em que foi erguida.

Enquanto reverencia os prédios que integram os Caminhos da Memória, Filippini lamenta a perda de outros tantos que foram substituídos pelo descontrolado crescimento urbano. Marta Slomp, coordenadora da Educação Patrimonial, acompanha o projeto e percebe que o público se surpreende com a história dos prédios antigos, o primeiro passo para sentir falta dos que não existem mais. “Em nome do novo, se destrói a história. A praticidade que um prédio novo oferece, um antigo não pode oferecer. Mas, se destruímos, é porque não temos consciência sobre a identidade cultural”, diz Marta. Para Filippini, a preservação do patrimônio histórico carece de um planejamento que organize o Centro. “Temos os prédios históricos mas não há uma unidade entre eles. Seria necessário um plano diretor que considere a implementação de diretrizes específicas e a adoção de instrumentos criativos que interpretem e proponham um modelo de arquitetura coletiva para o desenho urbano”, avalia Filippini.

Liliana Henrichs, diretora do Museu Municipal e do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural, aposta nos Caminhos da Memória como uma ferramenta para envolver a comunidade no debate e no desafio da preservação patrimonial. “O projeto não é um roteiro cultural ou um passeio turístico. As arquiteturas são como um livro, que, para ler, é preciso estar alfabetizado”, analisa. Conforme Liliana, é preciso conhecer o contexto histórico da arquitetura urbana para entender a sua importância na preservação da identidade cultural caxiense. “Um prédio antigo mostra que a cidade não nasceu naquele dia e que a cidade tem uma história”. Ela diz que ainda é possível valorizar o que restou da Caxias antiga e evitar a deteriorização dos prédios históricos, o que considera “uma arrogância e um desrespeito com os que passaram”. “Temos prédios maravilhosos dos séculos XIX e XX. E o que temos do século XXI? Banners e outdoors.”

O artista plástico Antônio Júlio Giacomin, 45 anos, escolheu um lugar afastado da cidade para pintar suas aquarelas. O seu ateliê, em Nossa Senhora da Saúde, é um prédio contemporâneo, que, pela sensibilidade do artista, foi construído em harmonia com o antigo. Na entrada do prédio, uma bicicleta enferrujada tem lugar de destaque. Logo adiante, uma escada de metal conduz à sala de exposições, onde um penico velho sob uma cadeira de palha, um rádio de madeira e uma mesa atacada pelo cupim mostram que o moderno combina com o antigo. Das grandes vidraças, dá para ver um galpão em perfeito estado de decomposição – pelo tempo. A paixão pelo antigo é visível em todas as obras do artista. Canecas enferrujadas, latas velhas, palha desfiada e casas em ruínas ganham cores e destaque nas telas de Giacomin. E o velho ganha status de relíquia.

Caxias também está na obra de Giacomin, em um bloco de croquis. “Ando sempre com um bloco, alguns lápis, tinta e pincéis no carro. Sempre que algo me chama atenção, faço anotações simples, que não levam mais do que cinco minutos. Depois algumas viram telas. Às vezes acabam ficando só no bloco. Mas o mais importante é conseguir capturar a essência.” Para Giacomin, Caxias não é a melhor cidade para um artista que procura cenários antigos. “Lembro quando era moleque – e nessa época já tinham destruído 90% do que era interessante –, me chamavam atenção os detalhes dos prédios e casas antigas. Hoje não enxergo mais a Caxias dos velhos tempos”, diz Giacomin.

Outras cidades registradas pelo artista, que em abril inaugura uma exposição sobre sua viagem à Catalunha, na Espanha, são mais generosas na oferta de boas paisagens. “Nos lugares da Espanha onde estive, as guerras destruíram cidades inteiras. Mas ainda se preservam centros medievais inteiros. É só abrir o bloco e começar a trabalhar.” Para Giacomin, o patrimônio arquitetônico de Caxias também sofre uma guerra violenta: “a do mau gosto”.

O artista prefere paisagens rurais, onde os novos prédios também avançam sobre a história. “É comum no interior ver aquela casa antiga, dividida em casa de dormitórios e copa, um porão de pedra e a casa de madeira. De repente, aparece do lado uma de material, com arquitetura muito duvidosa. E o antigo vem abaixo.” Ele lamenta a destruição das casas da Avenida Júlio, em nome do desenvolvimento econômico, e reclama a falta de matéria-prima. “Demoliram o que acharam que era ‘casa de pobre”. Havia casas geniais, e elas fazem falta pra mim.”

Filippini, que não se sente muito à vontade quando os participantes dos Caminhos da Memória o chamam de professor, vai continuar dando lições de preservação do patrimônio. Liliana garante que o roteiro é um programa permanente de sensibilização e confia no envolvimento comunitário. Enquanto isso, Giacomin prefere apressar-se em registrar a história em suas telas, onde só o tempo tem o direito de agir. “Acordamos tarde para preservar. A riqueza não está na fábrica ou no banco. Riqueza é bagagem cultural.”

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Fonte: O Caxiense

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