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Cartão postal da miséria

NotíciasRio Grande do Sul • 27 de novembro de 2009 por Silvana Losekann

Moradores de rua não vão a albergues da cidade e passam dia e noite sob o Viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros.

Faz cinco anos que José Carlos Cardoso, 66 anos, vê pouco a um metro de distância. Foi quando perdeu os óculos durante um porre. Parou de beber, mas um derrame prejudicou sua fala. Morador de Alvorada, viaja a Porto Alegre todo dia, para sob o Viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros, estende a mão e recebe moedas de passantes. Ele é um dos habitantes diurnos de um lugar que de marco turístico passou a cartão postal da miséria da Capital.

– Por aqui é o meu ponto. Uns me dão um real, outros, dois – justifica.

Cardoso deixa o Centro às 18h. Retorna no início da manhã e encontra os grupos que passaram a noite no local. São pessoas com quem ele não se relaciona:

– Eles tomam cachaça, fazem muito bolo. Eu não me meto com eles.

Quem toma cachaça é a turma de Fábio de Lima Freitas, 28 anos. Com o irmão Marcelo e outro companheiro, passa a noite debaixo do viaduto. Quando criança, a mãe largou a família. O pai arranjou outra. Um dia, matou essa mulher, a sogra e cometeu suicídio. Freitas ficou com o irmão em um casebre na Restinga Velha, que virou cinzas após ser incendiado por traficantes. O viaduto é um porto seguro. Iluminado e movimentado, é melhor do que os albergues.

– Tem um monte de gente na fila do albergue. No inverno o cara fica tiritando de frio – descreve Freitas, na noite de terça-feira.

A predominância no viaduto é de alcoolistas que não se dão com usuários de crack, revela o diretor-técnico da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Mauro Vargas:

– A turma do álcool não quer ficar com a turma do crack porque eles roubam.

No Albergue Municipal há crackeiros. Esse é um motivo secundário pelo qual os alcoolistas recusam ir para lá, de acordo com Vargas. O principal é não poder beber. Questionado sobre a segurança no abrigo, o diretor diz que há somente dois vigilantes e roubos ocorrem na fila de entrada.

Conhecedor do assunto, o ativista dos direitos humanos Jair Krischke critica o serviço. Para ele, a Fasc fica “esperando que as pessoas telefonem” para fazer abordagens a sem-teto.

– Quando vão, a abordagem é assim: “O senhor que ir?” “Não.” “Então, até logo.” – relata.

Vargas garante que as abordagens são feitas diariamente por pessoas capacitadas. Deixar as ruas, porém, não é solucionar o problema:

– “Vamos dormir e tomar uma sopa?” é uma perspectiva de vida ou é só para tirar o cara dali por um dia?

O ideal seria obter um tratamento para os vícios de quem habita as ruas, destaca o diretor, que crê na perspectiva de desenvolvimento de um programa com esse propósito.

Testemunha diária do problema, o presidente da Associação Representativa e Cultural dos Comerciantes do Viaduto Otávio Rocha (Arccov), Adacir José Flores, reclama da sujeira deixada pelos cerca de 70 sem-teto e de fortuitas cenas de sexo. Mas não pede que os expulsem, e sim, mais humanidade:

– Não adianta a Fasc vir com a polícia, levar as coisas deles e deixar os caras à deriva.

Entre os dias 1º e 5 de dezembro, a Arccov realiza a Semana do Viaduto Otávio Rocha para tentar conscientizar o poder público sobre a questão.

De volta à terça-feira, são quase 23h. O auxiliar de produção Vagner Silva, 30 anos, para em frente a Freitas e seus companheiros. Abre um saco plástico e distribui pães. Freitas olha para Silva e diz:

– Ele fez que nem Jesus.

Texto enviado para Zero Hora por Nelson Roberto Martinez Dick, frequentador do Centro

“É impossível ficar-se indiferente à mendicância praticada no Viaduto da Borges de Medeiros, que é um dos cartões postais da cidade. Em ambos os lados, mais de 20 pessoas permanecem atiradas nas calçadas, em cima de restos de colchões, roupas, papelões etc., sob o viaduto, na Borges de Medeiros. Agora, além dos pichadores, ainda deparamos com o enorme contingente de desabrigados mendigando numa área nobre e turística de nossa Capital. São meninas, jovens, senhores de mais idade.

Além de fazer suas necessidades no local, a céu aberto, ainda espalham lixo de toda espécie, atraindo roedores e insetos e, desta forma, prejudicando a saúde pública e o saneamento. A prefeitura deveria tomar uma providência e recolher essas pessoas necessitadas para algum lugar onde pudessem ficar com dignidade. Nesses momentos, os Direitos Humanos não se pronunciam! Onde estão os direitos dessas pessoas? E das que pagam impostos para terem uma cidade mais humana, limpa, segura e saudável?”

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Fonte: Zero Hora

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