Após sono medieval, Iêmen encontra sonho arquitetônico

Faz quase 800 anos que a casa de Saleh Qaid Othaim, localizada na zona mais central da Cidade Velha de Sana, foi construída, com pedras talhadas a mão, e decorada com motivos tradicionais do país, em alabastro.
E em certa manhã recente Othaim estava contemplando com satisfação o grupo de homens que trabalhava para renovar o local usando exatamente os mesmos métodos e materiais do passado. Os trabalhadores misturavam a mesma argamassa marrom escura conhecida como “teen”, usada para unir as pedras, e o mestre de obras supervisionava o trabalho, com um punhal pendente da cintura. Não havia andaimes, capacetes ou ruído de máquinas: apenas o barulho das talhadeiras e de sua colisão com as pedras, interrompido, no momento da última prece da tarde, pelo murmúrio das orações se elevando ao céu do deserto.
“Não importa quanto tempo a obra demore”, disse Othaim, que é funcionário público. “A coisa mais importante é que a reforma seja realizada da maneira tradicional”.
A Cidade Velha de Sana, a capital iemenita, é uma das joias arquitetônicas do planeta, uma densa combinação de torres medievais etéreas decoradas com filigranas brancas e encimadas por vitrais. Mas ainda mais incomum que a simples sobrevivência dessas edificações é o fato de que as artes construtivas do passado tenham continuado a prosperar aqui. Em outras partes do Oriente Médio, muitas das casas mais antigas estão sendo demolidas para abrir caminho a arranha-céus genéricos com estruturas de aço e fachadas de vidro. A paisagem ultramoderna de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com seus edifícios altos e nada harmoniosos que parecem ter sido arremessados do espaço sideral ao Golfo Pérsico, está sendo imitada em Beirute e em outras cidades.
O Iêmen é diferente. Apesar de todos os malefícios que o país sofreu -guerras, uma crise de água e a ascensão da Al-Qaeda -, sua adesão às velhas tradições faz com que muitas vezes ganhe o ar de um refúgio. Mesmo longe da Cidade Velha, as faixas e os crescentes da arquitetura iemenita tradicional podem ser vistos em muitas edificações e moradias iemenitas mais recentes, acompanhados pelas janelas translúcidas de alabastro conhecidas como gammariyas.
As tradições foram mantidas em larga medida devido à profunda pobreza e ao longo isolamento do Iêmen. Até 1962, o Iêmen do Norte era governado por imãs xenófobos que detiveram o poder por quase um milênio e excluíram toda influência externa. O país em larga medida passou incólume pela fase de renovação urbana da história árabe, durante a qual presidentes e reis eliminaram os velhos bairros e mercados de suas cidades, em um esforço por conduzir suas nações à era moderna. Por volta do início dos anos 80, quando o Iêmen ainda estava apenas começando a despertar de seu longo sono medieval, a preservação já estava em moda.
E havia muito a preservar. O país sempre foi famoso pelo seu estilo único de arquitetura, desde que os governantes sabeus construíram o palácio elevado de Ghumdan, 1,8 mil anos atrás. Um poeta medieval o celebrou com os seguintes versos:
“Ascende, galgando até a metade do céu
Vinte pisos de altura respeitável
Encimados por um turbante de nuvens brancas
E enlaçado de alabastro”
Os arquitetos que redescobrem a Cidade Velha logo encontram que existe mais que a beleza em jogo, na arquitetura local. As edificações tradicionais são também mais duradouras e mais efetivas que as modernas casas de concreto, e mais adequadas ao clima local.
“As casas tradicionais oferecem muitas vantagens ambientais”, disse Abdulla Zaid Ayssa, diretor do departamento governamental que supervisiona todas as construções e reformas na Cidade Velha.
O gesso tradicional não erode as pedras com o tempo, da maneira que o cimento moderno faz, disse Ayssa, e é também mais durável. O qadad, um material de isolamento feito de pedra e usado nos telhados e banheiros, é muito mais forte que seus equivalentes modernos. As velhas pedras e técnicas de isolamento são perfeitamente adequadas às abruptas mudanças de temperatura entre o dia e a noite, no clima desértico de Sana, de maneira a que o calor do sol penetre plenamente as paredes da casa apenas ao final do dia, e seja retido apenas durante a noite, e não mais, disse Ayssa. “Os nossos antepassados experimentaram durante centenas de anos para desenvolver essas técnicas”, ele afirma. “Em comparação, hoje em dia construímos casas com um conceito muito estúpido”.
O Iêmen não preservou tudo. Apenas algumas décadas atrás, a Velha Cidade tinha 10 ou 12 imensos portões, dos quais apenas um ainda existe. Alguns republicanos zelosos associavam a arquitetura do passado ao domínio dos imãs, e acreditavam que ela devesse ser destruída.
Ainda assim, o Iêmen preservou muito mais do que a maioria dos demais países árabes e, em 1986, a Unesco, agência cultural das Nações Unidas, transformou a Cidade Velha de Sana em patrimônio cultural da humanidade, o que ajuda o governo a obter dinheiro para a sua conservação. O departamento de Ayssa ajuda a subsidiar o uso continuado de métodos e materiais tradicionais, que muitas vezes custam mais caro que os modernos. Para impedir que a Cidade Velha se transforme em um simples museu, o governo construiu um moderno sistema de esgotos, na década de 80. As ruas de terra do passado, que levaram um escritor italiano a descrever Sana como “uma Veneza da poeira”, foram pavimentadas com pedras.
Agora, a cidade está superpovoada, e as autoridades encontram dificuldades para adaptar sua arquitetura tradicional aos novos modos de vida. Os pisos térreos das edificações, no passado usados para abrigar camelos e cabras, foram em larga medida reformados como lojas. As lojas servem para reduzir a importância do mercado central, que serve como coração social e cultural da Cidade Velha. Ainda assim, os moradores locais parecem apegados à arquitetura tradicional e aos rituais a ela associados.
“Tudo está mudando na cidade mas, ainda assim, geração após geração, ela permanece”, disse o empreiteiro Mahmoud Qais al-Arousi, 65 anos, enquanto contemplava seus pedreiros trabalhando na casa de Othaim. A edificação ainda mostrava nas pedras de canto as marcas dos arranhões deixados pela passagem de carroças. No passado, ela abrigava Nasser Salahuddin, um conhecido cidadão de Sana que morreu 720 anos atrás.
Arousi estava acompanhado pelos três filhos, os três construtores aprendizes. Sua família tem séculos de tradição no ramo da construção, ele afirma, e os filhos pretendem continuá-la.
“Aprendi seguindo a cada passo o trabalho do meu pai, as pedras, os hizams”, disse Arousi, se referindo aos cinturões horizontais característicos que cingem as casas iemenitas. “Meus filhos estão fazendo o mesmo”.
Tradução: Paulo Migliacci.
The New York Times






